Sobrevivente, olheiro de F9 e aprendiz: as facetas que forjaram Odair ao Inter

O apreço de Odair aos estudos não começou agora com sua efetivação como técnico do time principal do Inter. Se atualmente milita nos cursos da CBF para exercer a função e estagia no PSG enquanto o grupo tira férias, o ex-volante, desde quando pendurou as chuteiras, trata de aprender. E teve no clube do coração o aporte para não se entregar às provações da vida, buscar qualificação e confirmar as virtudes às quais apresentava desde garoto, como observador de talentos.

O início de 2009 mudou sua vida. Então com 31 anos, defendia o Brasil de Pelotas. Na noite de 15 de janeiro, o ônibus que levava a delegação caiu em um barranco quando passava por Canguçu, no sudeste do Rio Grande do Sul. O acidente vitimou Cláudio Millar e Régis, colegas do volante, e o preparador de goleiros, Giovane Guimarães.

O episódio culminou com o fim da carreira de Odair. Era preciso recomeçar, mas o que fazer? O agora ex-jogador recorreu a ao local onde tudo começou: o Beira-Rio. Pediu ajuda ao vice de futebol Fernando Carvalho. A dupla tinha ligação desde a base, quando era um promissor volante das seleções de base enquanto àquele que seria o presidente das conquistas da Libertadores e Mundial em 2006 trabalhava como diretor.

– À época, com a tragédia, ele tinha virado um ex-atleta. Precisava de uma ajuda. Eu sabia que tinha qualidade, já demonstrava – relembra Carvalho.

Aliás, esta visão e conhecimento já tinham o alertado para observar com mais atenção um atacante com quem dividia espaço nas andanças do time canarinho. Em 2004, a ideia se consolidaria como contratação e viria liderar os dois títulos do futuro mandatário e se eternizaria no coração dos colorados: Fernandão.

– O João Gabriel (ex-goleiro) e ele, após participarem do Torneio de Toulon, na França, me chamaram atenção para cuidar do Fernandão – revela o histórico dirigente.

O elo entre os dois e este talento, no entanto, não o dariam privilégios. Não seria nas posições de destaque do grupo principal. Nem no sub-17, sub-20 ou time B. Não. Foi como analista das categorias de base.

Só que o Inter não queria apenas um profissional qualificado. Era importante preparar o cidadão. O clube o acolheu e bancou seus estudos. Graças ao suporte, Odair teve condições de concluir Ensino Médio e cursos de formação profissional, bem como as licenças da CBF para exercer a função.

Papito, como é conhecido no vestiário, aproveitou. Passou por todas as categorias até que, em 2013, Dunga o pinçou para compor a comissão técnica. Mesmo após a saída do capitão do tetra, seguiu como auxiliar do grupo principal. Enquanto estudava, aprendia com Abel Braga, Diego Aguirre, Argel Fucks, Paulo Roberto Falcão, Celso Roth, Lisca, Antônio Carlos Zago e Guto Ferreira para forjar seu estilo próprio.

Após a demissão de Guto, recebeu a incumbência de confirmar o acesso à elite do futebol brasileiro nas três rodadas da Série B. Somou sete dos nove pontos possíveis, com quatro gols marcados e sem o time ser vazado. Após a negociação com Abel não avançar, ganhou a chance de comandar o Colorado. Carvalho admitiu que não esperava que a oportunidade aparecesse tão cedo, mas torce pelo sucesso do antigo parceiro:

– Fico feliz pela pessoa que é o Odair. O admiro muito. Torço para que as coisas deem certo.

Para confirmar, aposta na dedicação de alguém que viu a morte de perto, mas não desistiu para chegar até o posto de principal destaque no Beira-Rio. A busca do conhecimento é justamente seu trunfo para evitar o comodismo.

– Estou preparado. Não estou pronto. Acho que nunca estarei pronto. O dia a dia me fará melhor, me fará crescer. É uma honra estar aqui. O torcedor pode ter certeza que terá um representante para dar a vida – declarou logo após sua efetivação.

Nesta luta pela evolução, Odair deixou de lado as férias. Desde a última terça-feira faz um estágio em Paris. Amparado pela parceria construída com Neymar durante a conquista do ouro nos Jogos Olímpicos do ano passado, realiza um período de observações do grupo de Unai Emery, com acompanhamento dos jogos e treinos. Na sequência, passará por novo módulo do curso de treinadores da CBF, em Teresópolis, Rio de Janeiro.

Referendado pela bagagem acadêmica adquirida, Odair busca mostrar ao Inter que a confiança nele ao longo desta caminhada por Beira-Rio e o Centro de Treinamentos de Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre, no qual os garotos trabalham, surtiu efeito. A partir de 2 de janeiro, a resposta será dirimida.

Fonte: globo.com