Sem “loucuras”, vice de futebol aposta em ano maduro para colocar Inter no topo

Apesar das dificuldades do recomeço e dos obstáculos financeiros, o Inter inicia 2018 confiante. Em seu retorno à elite do futebol brasileiro, o clube acredita que pode muito mais do que apenas se garantir na Série A. Com fé na manutenção da base de 2017 e o acréscimo de peças que suprirão lacunas, a expectativa é lutar por, pelo menos, uma vaga na Libertadores de 2019.

Esse é o pensamento de Roberto Melo. O vice de futebol colorado passou por turbulências no ano passado. Conviveu com contestações, com duas demissões de treinadores (Antônio Carlos Zago e Guto Ferreira) e uma reformulação promovida no vestiário. Mas agora vê o Inter melhor preparado na largada da temporada. A ponto de apostar em Odair Hellmann, ex-auxiliar efetivado no comando da equipe.

Na manhã da última quinta-feira, o dirigente conversou com o GloboEsporte.com em sua sala, em frente ao Guaíba. Repleta de santos, que garante já ter encontrado no local quando ocorreu a reforma no Centro de Treinamentos do Parque Gigante, devora pastas, esmiúça números e avalia as performances individuais e coletivas do time, bem como de futuras contratações. Entre telefonemas e trocas de mensagens, Melo afirmou que o plantel, ainda aberto a reforços, já tem condições de brigar de igual para igual com outras equipes.

– O Inter brigará por tudo que um clube do tamanho e história dele tem que brigar. Lutará por títulos. Fazer o torcedor ter alegria e a confiança novamente. Queremos isso. Disputar todas as competições de igual para igual, que acredito que temos condições – afirma.

Confira os principais trechos da entrevista:

GloboEsporte.com – Quais as expectativas do Inter para 2018?

Roberto Melo – Queremos fazer um ano muito melhor que em 2017. Temos condições para isso. Iniciamos com uma base bem mais forte que o ano passado. Há um grupo formado no começo da temporada. Evidente que ainda poderão ocorrer chegadas e saídas, mas temos um grupo com capacidade para enfrentar o Gauchão. No ano passado, peças chegaram ao longo da temporada. Isso atrapalha bastante. Realizamos cerca de 15 contratações. Neste ano será um número bem menor. Já saímos com a base mais forte. Queremos ter força para competir de igual para igual com qualquer clube. E trabalharemos para isso.

Quais as lições que ficaram do ano passado?

Muitas lições. Foi um ano atípico. (Disputamos) uma competição que o Inter nunca tinha participado, era um cenário totalmente desconhecido. Quando falamos no ano passado precisamos lembrar mais para trás. Muito do que ocorreu ano passado foi reflexo do que já ocorria no clube. Ainda hoje há. São vários jogadores que retornam ao clube, mais de 30. Destes, mais de 20 já saíram. Gastamos uma energia tremenda para colocar estes jogadores no mercado, muitos ainda não saíram. O clube ainda arca com custos dos atletas.

Esta lição precisa ficar a todo dirigente: planejamento. Sofremos agora muita pressão para contratar jogadores de renome. O dirigente não deve ceder à pressão para acalmar torcida e imprensa. A maioria das vezes que isso ocorre, é realizado às pressas e não dá certo. O clube acaba prejudicado. Mais do que o ano seguinte ou a próxima gestão. É o clube que perde poder de investimento. O dirigente precisa aguentar e assimilar a crítica. Em muitas vezes, a pressão foi muito forte, mas tivemos serenidade para fazer o que é melhor ao clube.

O que o Inter vê no Odair para apostar nele como técnico?

É um cara que se prepara há muito tempo. O conheço desde a categoria de base. É um profissional identificado com o clube, jogou no Inter, conquistou a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Depois atuou no profissional. Foi um jogador com muito brio, que nunca desistiu e sempre lutou pelos seus objetivos. Como profissional da parte técnica também. Iniciou nas divisões menores, galgou cargos até chegar ao profissional. Trabalhou com diversos treinadores aqui, como Abel Braga, Diego Aguirre, Dunga. É um treinador que estuda bastante. Conhece o clube, a categoria de base, todos os nossos atletas. O fato de ser uma pessoa querida por todas não foi a principal virtude que nos fez o deixar no cargo, mas evidente que agrega. Principalmente para fazer a gestão do grupo. É um cara simples. Nos ajudou em diversos momentos mesmo não sendo o treinador. Ele fez por merecer. O Odair não caiu de paraquedas. Ele sofreu muito. Não começou hoje.

“São vários jogadores que retornam ao clube. Mais de 30. Destes, mais de 20 já saíram. Gastamos uma energia tremenda para colocar estes jogadores no mercado. O clube ainda arca com custos dos atletas” (Roberto Melo)

Foram duas demissões de treinadores em 2017. O que o leva a crer que neste ano será diferente?

Você, quando define uma situação e acredita nela, espera que não precise mudar. Você tem um planejamento de ir até o final do ano com o Odair. Esta é nossa ideia. Esperamos que ocorra da melhor maneira possível. Daremos todo o apoio para ele trabalhar. Sabemos que no futebol as coisas mudam muito rapidamente, mas nossa expectativa é de realizarmos um grande ano. O Odair tem o suporte de toda a diretoria, apoio e atletas. Tenho convicção que ele tem condições de realizar um grande trabalho.

Quanto o Gauchão pode ajudar nesta retomada?

Sempre valorizamos o Gauchão e temos interesse em vencê-lo. Demos e sempre daremos a importância ao regional, mas precisa ser o devido valor. Quando você ganha, não pode tomar aquilo como definitivo para o restante do ano. O nível de competição do Gauchão é diferente das outras disputas nacionais. Se você ganha, evidente que se comemora. Entraremos para ganhar, mas precisamos ter a ponderação para entender o que deu certo. Caso perca, evidente que não está tudo errado, mas precisa ligar um alerta ainda maior pelo nível da competitividade.

Pelo que o Inter brigará neste ano?

O Inter brigará por tudo que um clube do tamanho e história dele tem que brigar. Lutará por títulos. Fazer o torcedor ter alegria e a confiança novamente. Um time que jamais se entregue, que não aceite a derrota. Sempre inconformado com o resultado negativo. Você pode até perder, mas jamais aceitar a derrota. Isso cobramos, desejamos e seguirá assim neste ano. Queremos isso. Disputar todas as competições de igual para igual, que acredito que temos condições.

O Inter volta à elite após um ano de reconstrução. A possibilidade de uma nova queda assusta?

Nem falarei nisso. Estamos começando um ano. Um clube do tamanho do Inter precisa pensar em coisas positivas, em conquistas, disputar títulos. Não posso antes de iniciar a temporada sequer cogitar isso. Trabalharemos por coisas importantes.

Dá para alcançar uma vaga na Libertadores?

Eu acho que sim. Trabalhamos para isso. Quando analisamos os outros clubes do Brasileirão, evidente que há alguns um pouco acima dos demais. Com a base muito forte, de alguns anos. Outros com orçamento muito acima. Eles, na teoria, saem um pouco à frente, mas não é sinônimo de resultado. O Inter tem condições de brigar de igual para igual com todas as equipes. O Vasco, que jogou a Série B em 2016, conseguiu a vaga.

“Não podemos fazer loucuras e movimentos que comprometam o clube no futuro. Trabalhamos em busca do melhor negócio possível sempre. Mas o Inter é muito grande e, caso entenda necessário, (pode investir) em atletas que tivermos convicção”

O bom momento do Grêmio atrapalha? É uma pressão a mais?

Internamente não podemos deixar isso atrapalhar. O externo não pode entrar. No ano passado, trabalhamos muito e blindamos totalmente o vestiário. Aqui no Sul existe a famosa gangorra e isso influencia de alguma maneira, mas mais imprensa e torcida. Atrapalha e influencia o externo. Cobranças e críticas aumentam, mas, internamente, no vestiário, isso tudo ficará de lado.

Qual a avaliação dos reforços contratados até agora?

Trouxemos dois laterais-direitos. Eles foram destaques da Série B. Ela (competição) tem qualidade. O Dudu e o Ruan são jogadores que passaram por um excelente ano. O Patrick realizou um grande 2017. Começou no Goiás, quando acabou escolhido como o melhor lateral-esquerdo. Depois, no Sport, seguiu como lateral-esquerdo, mas se firmou como volante e foi um dos grandes destaques na posição. O Gabriel Dias também.

Nem preciso falar do Roger. Acredito que esteja no ápice da carreira, como ele mesmo declarou. Um jogador que faz muitos gols, tem quase 80 gols na Série A. O Inter tem dois centroavantes com muita qualidade, algo raro no futebol brasileiro. O Leandro Damião, quando esteve ausente, fez muita falta. O Roger vem também para suprir esta carência.

Há mais jogadores que serão contratados?

Um clube do tamanho do Inter nunca está completamente fechado. Quando for para agregar e trazer jogadores de qualidade, o Inter estará sempre de portas abertas.

O Inter vive um momento financeiro delicado. É possível realizar um investimento mais ousado?

Não podemos fazer loucuras e movimentos que comprometam o clube no futuro. Trabalhamos em busca do melhor negócio possível sempre. Mas o Inter é muito grande e, caso entenda necessário, (pode investir) em atletas que tivermos convicção que chegarão com grandes desempenhos nas últimas temporadas. Não em atletas de uma temporada só ou decadentes na carreira. Mas temos força, sim, para fazer o investimento.

O Paulão retornou ao clube após um período no Vasco. Ele permanecerá ou será recolocado no mercado?

O tempo dirá. Ele está integrado ao grupo, assim como ocorreu no ano passado. Depois saiu. Está integrado neste momento e, como todos os outros, receberá oportunidade. Se surgir alguma coisa, o que, no momento, não há nada, analisaremos o que for melhor.

Ele é um dos jogadores mais marcados pela torcida com o rebaixamento. Isso não preocupa?

Evidente que não é bom. E não é só com o Paulão. Há outros jogadores que estavam aqui e ficaram mais marcados que outros pelo rebaixamento. Vejo que foi até demasiado. Evidente que quem participou tem uma parcela de culpa, mas entendo que não foi a maior. Houve muita coisa errada em 2016 que culminou com o rebaixamento. Colocar em um, dois ou três atletas a culpa por isso é quase que uma injustiça. É um profissional que trabalha e tem contrato com o clube. Ele foi renovado em 2016 e tem mais dois anos de contrato. Precisamos respeitá-lo e ver a melhor maneira de conduzir a situação. Ele treina com o grupo na pré-temporada e, caso surja uma situação, veremos o que é melhor.

Anderson e Seijas voltarão ao grupo principal?

Eles, a princípio, se apresentam no dia 8 de janeiro. Sentaremos com os atletas para conversar. São profissionais que têm contrato com o clube e veremos a melhor maneira de encaminhar as situações.

(D’Alessandro é) Um jogador que treina muito, que cobra, cuida e dá exemplo a todos, principalmente aos garotos. Ele fez por merecer dentro de campo tudo o que representa.

O que pesou para renovar com o D’Alessandro por dois anos?

Renovamos, principalmente, pelo que demonstrou em campo. O D’Alessandro foi um dos jogadores que mais atuou no ano passado (52 partidas). Jogou cerca de 80% das partidas (77,61%). Para um atleta da idade dele (36 anos) é algo excepcional. Mostra o quanto ele se prepara e preocupa com a carreira dele. Ele tem uma participação muito grande nas ações ofensivas da equipe, nos gols marcados (oito em 2017), nas assistências (16). A renovação ocorreu pelo critério técnico, em campo. Além disso, ele tem o que todo mundo sabe, uma liderança muito grande dentro do vestiário. Uma liderança positiva, muito forte, um exemplo de profissional. É sempre um dos primeiros a chegar. Um jogador que treina muito, que cobra, cuida e dá exemplo a todos, principalmente aos garotos. Ele fez por merecer dentro de campo tudo o que representa.

Qual a mensagem para o torcedor neste ano?

O mais difícil de recuperar ano passado, por tudo o que ocorreu, o rebaixamento, pelas dificuldades, foi a confiança do torcedor. A mensagem é que o torcedor confie no nosso trabalho. Não faremos loucuras. Trabalhamos pensando no clube hoje e no futuro. Temos responsabilidade da forma mais comprometida. Que o torcedor acredite e apoie o seu time porque esta união fará toda a diferença.

Fonte: globo.com